o retrato do nosso futuro — ou uma tarde em Salton Sea

DSC_0194Há um tempinho, vi na televisão, por acaso, um documentário sobre uma cidadezinha chamada Salton Sea. O comecinho do programa já me interessou — um lugar no deserto com PRAIA? Pois é, um “mar” apareceu milagrosamente no deserto, e um monte de gente foi para lá curtir a vida adoidado. Hoje, não tem mais mar, não tem mais vida, não tem mais quase nada. Casas abandonadas, destroços e carcaças de peixes e pássaros mortos foram as coisas que restaram.

DSC_0057Desde então, fiquei doida para conhecer esse lugar. A cidade ainda está lá, firme e forte — e segundo o documentário, só aparecem visitantes lá para fazer documentários. Adiamos a visita por muito tempo, por conta de alguns imprevistos e por uma preguicinha também de dirigir 2 horas para chegar lá, mas finalmente eu e meu marido fomos para Salton no mês passado! Três palavras apenas sobre a experiência: que. coisa. doida.

Como já falei ali em cima, Salton Sea fica a duas horas de distância de Orange County, e é mais para o lado de Palm Springs — ou seja, lá no meio do deserto, desertão. Foi bem tranquilo para chegarmos lá, sem muito trânsito e a estrada é uma maravilha. Como fomos para voltar no mesmo dia — duvido muito que tenha um hotel em Salton Sea! –, eu dirigi na ida e o Thiago assumiu o volante na volta, para não ficar hiper cansativo para nenhum dos dois.

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Coisa linda que vimos na estrada

Um erro que cometi nessa mini-viagem e me arrependi muito depois: eu não a planejei muito bem. A gente acabou saindo de Irvine meio tarde (lá por 13h), e eu não procurei na internet nenhum “guia” do que ver por lá. Fui total na louca, pensando que era só chegar lá, ver as coisas abandonadas e voltar. Depois fui ver que não vimos outras coisas bem bacanas, e a vontade que eu tive foi de me bater e de voltar para lá no final de semana seguinte. Claro que não fiz nenhum dos dois, mas quero, sim, visitar Salton Sea em breve de novo. Já, já vocês vão entender por quê essa cidade é tão fascinante.

Chegando em Salton Sea, resolvemos não ir diretamente à praia. Vimos uma placa que indicava Salton City e entramos lá para ver o que restou da cidade.

https://i0.wp.com/saltonseamuseum.org/photos/salton_sea_history/salton_sea_sra2.jpg
http://saltonseamuseum.org

Bom, Salton City já foi muito agitada um dia. Devido ao mar milagroso que surgiu por lá (já vou explicar como isso aconteceu), muita gente comprou casas e terrenos por lá, e foram surgindo também muitos comércios. Quando a cidade começou a ter alguns probleminhas, o pessoal desencantou e resolveu ir embora dali. Muita gente praticamente abandonou suas casas, deixando lá moveis, roupas e itens pessoais, deixando claro que esses probleminhas que aconteceram foram bem graves.

https://derepentecaliforniadotcom.files.wordpress.com/2015/04/dcd45-saltonseapostcard2.jpg?w=1037&h=657
Cartão postal da cidade, anos 50. http://cheryldkidder.blogspot.com

Hoje, Salton City tem 3 mil habitantes — e eu não sei como tem gente que ainda mora lá, sinceramente. Quando entramos na cidade, já vimos algumas casas abandonadas e depredadas — janelas quebradas, casas já sem portas, objetos por todos os cantos –, e no meio delas, casas bonitinhas e gente morando lá, tranquilamente. A cidade não tem restaurantes, comércio, praças, NADA mais, e ainda tem um pessoal por lá. Fiquei me perguntando o que eles fazem com o tempo deles e não encontrei uma resposta.

Estacionamos o carro em qualquer lugar — não tem nem mais calçada e rua direito, e com certeza a polícia não anda por aqui, então, chances de 0,0001% de levar uma multa. Durante o tempo que ficamos andando por lá, parecia que o tempo tinha parado ali. Não tinha carros passando, gente conversando, nenhuma música aleatória tocando, nenhum barulho. Era só a gente, o calor desértico e casas destruídas misturadas com casas habitáveis. Foi um sentimento totalmente diferente andar por ali.DSC_0098 DSC_0101A coisa é tão parada e bizarra que até bateu um ~medinho~. Você está num lugar deserto, literalmente no meio do deserto, em uma cidade praticamente abandonada. Além disso, as casas destruídas e abandonadas estão por toda a parte — juro que é IGUALZINHO cenário de filme de apocalípse. Só que lá é real. Sentiu o drama, né? Parece um pedacinho de terra totalmente sem lei, então a gente ficava a todo momento olhando ao redor, vendo se não tinha alguma gangue da cidade por ali, sei lá. Já pensou se vinha um pessoal pensando que que esses dois tão fazendo aí, tão pensando que são quem invadindo nosso gueto? Talvez eu esteja assitindo muito filmes assim, mas deu medo. Nada de mais aconteceu e eu tratei de tirar pensamentos bobos da minha cabeça e aproveitar o lugar. Eu entrei em várias casas abandonadas (meio que morrendo de medo, mas fui), e fui me enfiando no meio dos objetos velhos abandonados para tentar ver mais detalhes do que realmente aconteceu ali.DSC_0116DSC_0118 DSC_0119 DSC_0124 DSC_0125 DSC_0127

Não tive nenhum surpresa muito desagradável, muito pelo contrário. Foi muito interessante ver como as pessoas se desligaram completamente daquele local, deixando coisas que um dia foram importantes para elas. Foi incrível ver também como uma cidade que era tão agitada e promissora acabar assim, tão rápido. Salton City foi um lembrete de que tudo o que existe vai deixar de existir, um dia. Estar naquela cidade foi tipo dar um pulo no futuro e ver como as coisas vão ficar quando a gente não existir mais.DSC_0129 DSC_0131 DSC_0137 DSC_0140 DSC_0152 DSC_0157 DSC_0161Depois de andarmos pela cidade, fomos, finalmente, conhecer o que restou do mar que apareceu no meio do deserto. Vou explicar para vocês o que aconteceu: em 1905, engenheiros da California Development Company decidiram aumentar o fluxo de irrigação nessa área da Califórnia, para dar uma mãozinha para a agricultura da região. Para isso, eles abriram alguns canais de irrigação no rio Colorado. Parecia uma tarefa fácil, mas os engenheiros “explodiram” a área errada do rio, fazendo com que a água do caminho que tinha sido aberto não fosse para as plantações, e sim para a Bacia de Salton, um lago que tinha secado há algum tempo já. Durante dois anos, esse fluxo grande de água caía lá em Salton, formando um grande lago. Em 1907, finalmente os engenheiros conseguiram construir uma barragem e a água do rio Colorado parou de ir para o meio do deserto.

O grande lago, chamado de mar pelo pessoal da região por ser tão grande, logo começou a ficar popular. Nos anos 50 e 60, Salton Sea virou uma grande atração turística e atraiu diversos novos moradores. A cidade atraia meio milhão de visitantes por ano, e era comum o pessoal ir para lá para passar as férias, comprar uma casa de praia, curtir um jet ski e pegar uma corzinha.

https://i1.wp.com/all-that-is-interesting.com/wordpress/wp-content/uploads/2015/03/salton-sea-tourists.jpg
Turistas, anos 60. http://all-that-is-interesting.com

Porém, o que era visto como uma “benção” — praia no deserto, onde faz calor o ano inteiro? milagre! — começou a se tornar um pesadelo. A área onde Salton Sea está localizada é cheia de fazendas agricultoras, e a água que escoa desses lugares — cheia de sal, pesticidas e fertilizantes — vai parar direto no “mar” de Salton. A salinidade da água foi crescendo drásticamente, e hoje é maior do que o oceano Pacífico. Nos anos 70, a água que atraia milhares de visitantes foi ficando cada vez mais venenosa e já não era um habitat sustentável para qualquer tipo de vida. Logo, as praias ficaram lotadas de peixes mortos.DSC_0074 DSC_0090A combinação do cheiro dos peixes com a grande quantidade de alga apodrecendo fez com que ninguém conseguisse ficar perto da praia e dos arredores. O cheiro terrível e a aquele monte de água contaminada fez com que moradores abandonassem suas casas — quem iria comprar uma casa ali? — e visistantes ficassem bem longe daquele lugar.

E, realmente, o cheiro lá é insuportável. Quanto mais chegávamos perto da praia, mais aquele odor era forte. Houve um momento que tive que me afastar um pouco, porque meu estômago já estava revirado por causa do cheiro. Tomei um ar (fresco), respirei fundo e fui lá para a beira do mar para melhor ver a situação. A chave é respirar pela boca. Em Salton Sea, SEMPRE respire pela boca.DSC_0109 DSC_0217 Não há como chegar na beira da água. O que eu pensei que fosse areia branca na praia era, afinal, ossos quebrados em pedacinhos de milhões de peixes. Quanto mais eu andava em direção a água, mais a pilha de ossos ficava mais funda. Chegou um ponto que eu não conseguia mais andar, meu pé simplesmente afundava naquele monte de ossos.DSC_0219DSC_0202 Além dos peixes, muitas aves morrem diariamente em Salton Sea. Apesar disso, essa região tem a maior variedade de pássaros na Califórnia e atrai muitos estudiosos da área.

Visitamos outra praia de Salton, mais para o sul, e encontramos algumas pessoas acampando lá, com trailers. Não faço ideia como eles conseguem ficar lá com aquele cheirinho ~característico~, mas imagino que estejam acostumados. Devem ser pesquisadores ou apenas doidos curiososos, mesmo.DSC_0230

Essa visita a Salton Sea despertou vários sentimentos novos (e não tão novos assim) em mim. Gostei muito de cada descoberta, de cada detalhe surpreendente, de todas as coisas diferentes que pude ver lá. Apesar das casas já estarem bem depredadas — a primeira coisa que a galera saqueia são portas, janelas e eletrodomésticos –, foi legal ver de perto como as coisas eram há 40 anos.

Voltarei, com certeza, para explorar os lugares que não deu tempo de conferir. E, claro, venho aqui contar para vocês como foi. 😉

E vocês, já ouviram falar de Salton Sea? Visitariam, se tivessem a oportunidade?

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6 thoughts on “o retrato do nosso futuro — ou uma tarde em Salton Sea

  1. Oi, eu estude historia de California em faculdade e lei de esta mar The Salton Sea. Eu foi pra la como duas semanas atras mais e como voce falo. Muito ruim, cheiro..uffff pra que dizir. Mais tudavia e uma parte de historia de California como o mar foi criado. Obrigado por seu historia que eu tambem posso dizir que visite uma veis se quiser…mais e uma experiencia diferente.

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  2. Gabi, que história louca desse lugar! Dá pra ver como realmente, com a natureza não se brinca. Fiquei com muita vontade de ir aí e suas fotos ajudaram muito a ilustrar a situação. Hope has left foi foda 😦

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    1. Pois é, foi uma viagenzinha bem diferente! O lugar é realmente surpreendente, e essas frases só aumentaram o drama da situação… É um must see pra quem viaja pra cá, e pouquíssima gente ouve falar!

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